RESPOSTA AOS COMPANHEIROS DA ORGAP
Aqui vai um texto retirado do zine "Revolta Skinhead", #01.
A Organização Anarco Punk (ORGAP) escreveu um texto levantando alguns pontos considerados polêmicos sobre os skins e defendendo que "a cultura skinhead não é compatível com o anarquismo". Como a intensão dos companheiros da ORGAP era o de gerar a discussão sobre o tema, tratei de responder aos pontos levantados. Transcreveremos aqui o referido texto integralmente (em itálico) junto com a nossa resposta (em negrito).
Saudações libertárias,
Estas notas são um meio de difundir a todo o movimento libertário nossa visão sobre a questão do skinhead, principalmente sobre a RASH enquanto grupo que reinvidica o anarquismo.

Sempre deixamos bem claro nosso posicionamento radical de contraposição à cultura skinhead e, como parte desta, a RASH. Já participamos - e o seguiremos fazendo - de discussões sobre este tema em diferentes locais e com variados indivíduos/grupos, no entanto, pensamos que é necessário criar referências documentais sobre a questão para ampliá-la geograficamente e torná-la atemporal.
Ademais, o ato de registrar idéias imprime a seriedade que acreditamos ser im prescindível ao tema, uma vez que nossa crítica não é uma mera falta de afinidade pessoal, musical ou que for, como pensam alguns, muito menos "coisa de anarcopunk", como muitos o têm dito; senão um dilema ético latente dentro do movimento anarquista.
Tentaremos expor por tópicos o porque da não aceitação do skinhead enquanto núcleo libertário. Não nos importa aqui a parte comunista autoritária da RASH - que, diga-se de passagem, é muito maior que a anarquista -, pois a esses indivíduos realmente não temos críticas quanto à sua coerência político-cultural. O skinhead, assim como ora foi cooptado por movimentos de extrema direita, é perfeitamente plausível dentro de qualquer perspectiva autoritária, como é o comunismo (autoritário).
Nossa tese se baseia no fato de que A CULTURA SKINHEAD NÃO É COMPATÍVEL COM O ANARQUISMO.
Vamos, pois, aos tópicos:
1 - Xenofobia.
Desde os seus primórdios, os skinheads são xenófobos. Já na Inglaterra, na década de 60, skins brancos e negros saíam às ruas juntos em busca de imigrantes paquistaneses a quem espancar. Essa é uma raiz profunda do movimento, denominada "paquicrash", e surgiu muito antes de qualquer vinculação propriamente ideológica do skinhead.
Há muitos skins que se dizem anti-racistas, mas a essência do problema da exclusão vai mais além. Hoje a própria democracia burguesa igualmente se diz anti-racista, afinal, o que lhe importa é que seja rico, e não necessariamente branco. Tenhamos, pois, isso em questão quando falamos de racismo e anti-racismo: dizer-se anti-racista, afinal, não é tão revolucionário assim, e esse não é exatamente nosso questionamento. Questionamos as raízes do skinhead, as quais, é fato, são xenófobas.
Como que os skinheads podiam ser xenófobos se surgiram da união dos brancos ingleses com os negros jamaicanos. E a maior diversão dos primeiros skins era ouvir ska e reggae, cujos músicos eram em sua esmagadora maioria negros estrangeiros (principalmente das Antilhas).
Pode-se dizer, contudo, que havia no começo do movimento um certo sentimento ganguista. Os asiáticos se tornaram um "alvo" comum pelo fato de serem facilmente reconhecidos e de absolutamente nunca revidarem os ataques dos skinheads. Logo, o packcrash não era fruto de uma suposta raiz xenofóbica dos skinheads, mas sim fruto de um forte sentimento grupal (não que isso justificasse o packcrash!).E realmente, dizer-se anti-racista não é algo tão revolucionário assim. É por isso que o RASH, como fica explícito nos nossos pontos de unidade, não luta apenas contra o racismo e o fascismo, encara também a raiz do problema: o capitalismo.
2 - Violência desmedida e inconseqüente.
O skinhead é pura e simplemente baseado na violência. Esse constitui seu entretenimento básico: procurar brigas e confusões para meter-se, sejá lá pelo que for. O skinhead surgiu disso, é inegável, e disso sobreviveu até os dias atuais, e essa é sua raiz.
Nós, como anarquistas, acreditamos no respeito e no diálogo para a resolução dos conflitos entre as pessoas, e apoiar um grupo de jovens inconseqüentes que a qualquer momento podem realizar agressões e coagir qualquer outro indivíduo no espaço público nos parece insano. Para nós, a violência só deve ser usada para autodefesa e para motivos muito concretos, como a Revolução Social. Utilizá-la como um fim em si é algo não só autoritário, como ridículo.
De fato, um dos passatempos principais dos skinheads era se meter em brigas e confusões. Mas as brigas não aconteciam por que eles eram incapazes de dialogar para resolver seus conflitos, eles brigavam por que era o divertimento deles. E brigavam principalmente com outros skinheads que estavam igualmente afim de se "divertirem". Tanto é que quando o time local ia jogar com um time visitante, grupos diferentes de skins que costumavam brigar entre si, juntavam-se para pegar os skins da torcida adversária, prova que não havia conflito entre eles nem tentativa de coagir ninguém - eles apenas gostavam de brigar. Assim, por mais que os primeiros skins pegassem os asiáticos, quem mais apanhava dos skinheads eram os próprios skinheads!
Com o surgimento dos skinheads anarquistas, a violência não deixa de ser usada, ela apenas torna-se "politizada", como bem fala uma reportagem do jornal "Diário Las Últimas Notícias" sobre a atuação de um coletivo chileno RASH-SHARP:
"As ciências políticas fazem com que a personalidade de Pablo tenda a ser reflexiva. Não fala por falar nem sofre arrebatos de cólera, mas ponha-lhe um nazi na sua frente e verão seu giro brutal para a violência. (...) Pablo, Fernando, Sebastián, Jano e Gabriela, fazem parte do coletivo RASH-SHARP Santiago, uma organização que completou um ano ajudando às minorias. Fernando integra, além disso, o grupo musical antifascista 'Curasbún Oi!', o mesmo que foi atacado por neonazis em Valparaíso".
Eu, particularmente, não vejo diversão nenhuma em ficar brigando por aí. Contudo, não compartilho da visão hipócrita e conservadora de que a violência é um mal por si só. Tudo bem que brigar por diversão só fode você mesmo e não tem nada de revolucionário. Mas por acaso beber e fumar não prejudica apenas nós mesmos e igualmente não contribui em nada para a revolução social (e ainda dá dinheiro para as empresas capitalistas e/ou traficantes-burgueses). Mas a gente gosta, fazer o quê?
3 - Estética.
Todos os elementos da estética skinhead são uma alusão à violência inconseqüente. Os coturnos são usados para pisar em adversários nas brigas de rua, os suspensórios servem para prender as calças largas, que são retiradas rapidamente em brigas de rua caso caia no chão e tenha-se que fugir. O corte de cabelo também é uma tática de conflitos de rua.
O visual militar do skinhead nunca foi uma crítica ao militarismo - como o fizemos e seguimos fazendo os anarcopunks -, muito pelo contrário: constitui um orgulho do grupo.
O culto à forma física também é inerente ao skinhead. A estética skin é fundamentada na imagem do "brutamontes", seja esse White Power ou RASH.
Desde o surgimento do skinhead tem sido assim: a vinculação desse padrão é outra raiz do movimento. Enquanto anarquistas, questionamos essa padronização abominável difundida pelos skins, e lutamos pela diversidade física e pela não-padronização do corpo e da estética.
A estética skin é toda baseada nas raízes operárias e multirraciais: ao invés de coturnos militares, os skins usavam botas de operários (como as Doc Martens) e o suspensório também é para afirmar a raiz proletária. O cabelo curto foi adotado porque era o costume dos negros da época (os rude boys usavam porque eram negros e os mods porque eram fãs da música negra americana como o soul). E, diga-se de passagem, a cabeça nem pelada era - o cabelo era apenas curto para os padrões da época.
Os skins tradicionais não cultivavam essa imagem de brutamontes, na verdade a maioria eram moleques adolescentes que sequer tinha tempo ou dinheiro para ficar se bombando. Essa imagem de brutamontes só se tornou comum com o surgimento dos boneheads, porém foi essa a imagem que ficou estereotipada devido ao sensacionalismo da mídia burguesa.
O visual skin realmente não é uma crítica ao militarismo, o que não significa que não sejamos contra isso. Se quiser ouvir alguma crítica ao militarismo você pode começar ouvindo um dos hinos skinheads: a música do "4 Skins" chamada "All Cops Are Bastards" (Todos Os Policiais São Desgraçados) - se achamos isso da polícia, imagina o que achamos do exército.
E, tirando as botas, os suspensórios, o cabelo raspado e, de uns tempos para cá, as jaquetas, não existe nenhuma padronização do visual do movimento. Pelo menos não mais que o movimento punk com seus coturnos, jaquetas, patches e moicanos.
4 - Exaltação do proletariado enquanto classe permanente.
A perspectiva skinhead do trabalho é a de aceitação e alienação. O "orgulho" de ser proletário é visto como um fim em si mesmo, e não contém uma proposta de abolição de classes, se não mantê-las.
O anarquismo é uma ideologia que nasceu nas classes desfavorecidas e por elas sempre viverá, até que deixem de existir. Essa é a diferença básica entre o anarquismo e o skinhead: enquanto um propõe a abolição das classes, o outro exalta uma classe específica (o proletariado) sem perspectiva de destruí-la.
Todo skinhead é fundamentado na questão do proletariado, e essa "obsessão" inclui também todos os vícios e questões culturais nocivas que possui o proletariado, sem questionamentos por parte dos skins, e sim de reprodução: a alienação, o machismo, a homofobia, a violência (por exemplo, os hooligans)...
Lendo o texto até parece que o movimento skinhead foi criado artificialmente por algumas pessoas que escolheram a classe operária para ter orgulho e escolheram também praticar todos os seus vícios. Na verdade o movimento skinhead nasce da própria classe operária, e, como é de se esperar, não consegue desfazer-se imediatamente de muitos de seus defeitos (alguém pode escolher deixar de ser alienado?).
Mas vale lembrar que uma das coletâneas de Oi! chamada "Oi! of Sex", de 1984 (ou seja, antes mesmo da "politização" do movimento), traz uma espécie de manifesto na sua contra-capa. Um dos pontos desse manifesto era "ser oi! é ter orgulho de ser trabalhador, mas não de ser explorado".
E se os skinheads não conseguem ver desde o início do movimento uma proposta clara para acabar com a exploração sofrida por eles, pelo menos esse orgulho proletário acaba gerando uma consciência de classe, fazendo com que a maioria dos skinheads rejeitasse a política das urnas (para eles tanto o National Front nazista quanto o Partido Trabalhista reformista davam no mesmo). Assim, para a maioria dos skinheads, a única política aceitável era a política das ruas, defendendo principalmente a união de toda a juventude "sem futuro" como punks e skins.
Essas são críticas gerais ao skinhead. Gostaríamos, além disso, de direcionar a crítica à RASH anarquista, sobre a qual temos ainda outros tópicos:
5 - Conciliação do anarquismo com o comunismo autoritário.
Não é possível conciliar um projeto de sociedade antiautoritária com um projeto de sociedade autoritária. Isso constitui um paradoxo inexorável. Por isso entendemos a RASH como um equívoco político muito grosseiro.
A história nos mostra que, em momentos críticos, o anarquismo foi sempre marcado por traições de vários grupos da dita esquerda autoritária, haja visto o caso espanhol (Guerra Civil Espanhola, 1936) e o russo (Revolução Russa, 1917), só a título de exemplificação simplista. Acreditamos que é possível trabalhar até certo ponto com esses grupos, mas ter autonomia completa e infra-estrutura própria são indispensáveis, pois a qualquer momento, numa situação revolucionária latente, é óbvio que tenhamos que desvincular-nos deles, por termos um projeto antagônico de sociedade.
Enfim: trabalhar algumas afinidades é aceitável. Constituir um núcleo "homogêneo" é confuso, é impossível - por questões primárias.
Mas o RASH não é um grupo homogêneo.
É uma frente cujos principais objetivos são lutar contra o fascismo (principalmente o do meio skinhead) e a desmistificação do nosso movimento. Embora o RASH se comprometa a lutar também contra o capitalismo, essa luta se dá de forma autônoma entre skins anarquistas, que militam em seus coletivos anarquistas, e os skins comunistas, que militam em seus grupos (partidos) comunistas, devido às diferenças que a ORGAP muito bem descreveu.
É uma frente cujos principais objetivos são lutar contra o fascismo (principalmente o do meio skinhead) e a desmistificação do nosso movimento. Embora o RASH se comprometa a lutar também contra o capitalismo, essa luta se dá de forma autônoma entre skins anarquistas, que militam em seus coletivos anarquistas, e os skins comunistas, que militam em seus grupos (partidos) comunistas, devido às diferenças que a ORGAP muito bem descreveu.Embora existam sim esses exemplos de traição que fazem com que anarquistas como eu sempre fiquem com o pé atrás diante desse tipo de "união", existem também exemplos de frentes bem sucedidas, que inclusive tem mais a ver com os propósitos da RASH. É o caso da Frente Única Antifascista de 1934, que culminou na famosa "Revoada dos
Galinhas Verdes", onde anarquistas e comunistas derrotaram os integralistas, que eram a versão tupiniquim dos nazi-fascistas europeus.
Galinhas Verdes", onde anarquistas e comunistas derrotaram os integralistas, que eram a versão tupiniquim dos nazi-fascistas europeus.Além do mais, a RASH não é o único meio onde atuam skins anarquistas. Na Espanha existe a FASH (Federación Anarco Skinhead), formada por alguns militantes da CNT. Nos EUA existe a ASAP (Anarchist Skin And Punks), que, como o nome já diz, agrega skinheads e punks anarquistas.
6 - Um fundamento básico e a prática.
Constitui também uma raiz do skinhead o fato de ele ser uma irmandade, fundada e movida pelo simples orgulho de pertencer a ela. Já no começo do movimento, esse foi o seu fator de criação e crescimento, e continua sendo desde então. Por isso, apesar das diferenças políticas e demais diferenças, os skinheads são um grupo unido.
É extremamente complicado coordenar um movimento político sério como o é o anarquismo sabendo que há indivíduos que, por questões culturais, têm contatos perigosos do ponto de vista político. Isso é algo que sempre aconteceu, tanto no caso específico do Brasil como do resto do mundo. Sabemos que indivíduos da RASH têm contatos pessoais com outros skinheads de viés direitista, e não o vêem como algo nocivo, pois sempre separa a política do pessoal.
Ora, o pessoal é o político! Viver o anarquismo em todos os campos da vida é ser revolucionário. Do contrário, é não só contraditório como prejudicial.
O quê um skinhead anarquista tem em comum com um skinhead fascista? Eu diria que apenas o visual e o nome (e olhe que nós preferimos chamá-los de boneheads). Isso pode bastar para a sociedade burguesa nos enquadrar no mesmo grupo, mas os anarquistas não deveriam fazer o mesmo.
(...)
Esperamos que, com esse texto básico, possamos criar um espaço de reflexão e discussão dentro de todo o movimento libertário. Estamos abertos a respostas, sugestões, críticas e comentários; e temos um vasto arquivo sobre o assunto, que colocamos a disposição para consulta.
Saúde e Anarquia!
Organização Anarco Punk
Como já foi dito, o movimento skin nasceu na classe operária, herdando muita merda dessa classe. E se os skinheads em algum momento demonstraram algum traço de xenofobia, de machismo, de homofobia, de ganguismo, etc... com certeza não demonstraram com maior intensidade do que os próprios trabalhadores o fizeram. Todas essas merdas não são próprias da classe dominada, são preconceitos impostos a toda a sociedade pelas classes dominantes para melhor explorar.
O movimento skin não é, não foi, nem nunca será perfeito. Mas o que faz um anarquista reivindicar um movimento tão cheio de defeitos como esse? Eu particularmente me identifico com as verdadeiras raízes do skinhead, classe operária e multirracialidade. Mas me identifico principalmente com a realidade nua e crua com que o skinhead representa, a merda da sociedade em que a gente vive, com todos os seus defeitos e qualidades, e não a droga de uma sociedadezinha perfeita que só existe dentro dos muros da universidade.
E o que faz um skinhead reivindicar o anarquismo? O fato do anarquismo apresentar a tal proposta clara para acabar com a exploração sofrida por eles, de tal forma que o ANARQUISMO NÃO SÓ É COMPATÍVEL, COMO COMPLEMENTA O MOVIMENTO SKINHEAD, assim como o anarquismo complementa o punk.
Esperamos que, com essa resposta básica, possamos criar um espaço de reflexão e discussão dentro de todo o movimento libertário. Estamos abertos a respostas, sugestões, críticas, comentários, xingamentos e ameaças de morte; e temos um vasto arquivo sobre o assunto, que colocamos a disposição para consulta.
Saúde e Anarquia (e um pouquinho de violência)!
