IF THE KIDS ARE UNITED THEN WE'LL NEVER BE DIVIDED!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

O QUARTETO ENQUADRADO

O QUARTETO ENQUADRADO
O SOM E A LENDA DOS 4-SKINS

por Glauco Mattoso


[1] Penso que a definição mais apropriada para os 4-Skins é
a de uma banda destinada a colecionadores fanáticos. Os
4-Skins contrariam todas as praxes que se verificam na
história do rock, cujos grupos costumam ter os mesmos
integrantes durante toda a carreira "oficial" (como os
Beatles), ou então são comandados por um líder (como Ian
Stuart na Skrewdriver) que ora pode ser o vocalista, ora
o guitarrista, geralmente

autor das canções, e os demais
integrantes vão sendo
substituídos ao longo da vida
artística. Com os 4-Skins a
regra é quebrada por completo,
já que seu líder era o
baixista, que quase nada
canta, e seus três vocalistas
foram tão rotativos
quanto os demais músicos.
[2] Historicamente, a
importância da banda é muito
mais relevante que o volume
da discografia ou a qualidade das composições,
interpretações e gravações. Apesar da formação instável,
que privou a banda de ter uma "cara conhecida"
representada pela figura de proa (como Jimmy Pursey na
Sham 69, Mensi nos Angelic Upstarts ou Micky Fitz na
Business), a imagem do grupo era tão forte que se
preservou como símbolo de toda a subcultura skinhead,
em sua década mais fértil e polêmica, os anos 80.
Nenhuma das bandas que lhe foram contemporâneas (como
a Combat 84, a Last Resort e a Blitz) ou imediatamente
posteriores (como a Oppressed, a Condemned 84 e a Close
Shave) teve a mesma mística nem exerceu a mesma influência
naquela e noutras gerações de skinheads pelo mundo afora.
A explicação para tamanho carisma talvez comece pelo nome,
escolhido com a simplicidade dum ovo de Colombo. Eles foram
os únicos a assumir a palavra "skin" no logotipo, cujo
algarismo 4 tem um apelo visualfortíssimo, capaz de sugerir
uma suástica (para quem quiser procurar implicações
ultradireitistas) ou o A do anarquismo punk (para quem quiser
situá-los na militância anti-Sistema que proliferou na era
Thatcher), e o trocadilho formado pela justaposição
alfanumérica dos dois elementos ("foreskins" significa
"prepúcios") pode induzir a interpretações anti-semitas,
no sentido de se contrapor à circuncisão judaica,
ou simplesmente indicar que os componentes são machos no
duro, portanto valentes e aguerridos.

[3] Por outro lado, as bandas skins tipicamente neonazistas — cuja
vertente musical é designada pela sigla RAC (Rock Against Communism,
em português Rock Anti-Comunista), representada pela pioneira Skrewdriver
(formada ainda nos 70, antes dos 4-Skins) e por suas seguidoras Brutal
Attack, No Remorse, Squadron, Skullhead, English Rose e outras, estas
posteriores aos 4-Skins — constituem um caso à parte, seja em termos
de letra, seja de música, visto que procuram distanciar-se da chamada
"Oi!music" para se aproximarem do som heavy metal de bandas como Black
Sabbath,Judas Priest ou AC/DC, enquanto liricamente o discurso é explícito
e doutrinário. Deste gênero já tratei em outro ensaio, intitulado
"Nazi-rock: retrospecto para uma discografia mínima", cabendo aqui analisar
centralmente o papel dos 4-Skins no contexto da "Oi! music" e do movimento
skinhead como um todo, não apenas da facção mais fascista.















The classic 4skins line-up: Gary Hodges,
Steve 'Rockabilly' Pear, John Jacobs and Hoxton Tom McCourt- Aldgate 1980.

[4] O estilo de punk rock rotulado como "Oi!" e voltado para o público
skin nada mais é que uma reafirmação das raízes rítmicas do punk rock
setentista (contra a deturpação "danceteira" da new wave), bem como uma
reafirmação das raízes culturais do skinhead — valorizando a classe
operária; o futebol e o fanatismo do torcedor local ou nacional; o
coturno como uniforme e arma de luta; a cerveja e as arruaças em torno
do pub; o rigor duma moda que nunca muda (botas, suspensórios, cabeça
raspada, tatuagens, etc.) — mas os grupos representativos da cena Oi!
sempre fizeram questão de cultivar também o público punk que dividia as
ruas londrinas com os skins, razão pela qual as bandas tipo Sham 69,
Angelic Upstarts, Cockney Rejects, Cock Sparrer, entre outras, não
explicitavam o termo "skinhead" em suas letras. Aquelas que o fizeram
(como a Combat 84, a Last Resort, a Condemned 84 ou a Oppressed) arcaram
com o ônus do estigma e engoliram maior ou menor dose de boicote. A
Oppressed (através de seu líder Roddy Moreno) chegou a proclamar-se
porta-voz do movimento SHARP (Skinheads Against Racial Prejudice, ou
skins contra o preconceito racial) justamente para dissociar o skin da
pecha de racista, enquanto a Sham 69 (através de seu líder Jimmy Pursey)
participava do RAR (sigla de Rock Against Racism, facção contrária ao
RAC) na tentativa de unificar a juventude suburbana em torno de causas
social e politicamente corretas. Já os 4-Skins foram, desde sua origem,
fiéis à estética e à ética skinhead, assumindo em igual proporção o
orgulho e a suspeição que envolvem os carecas botinudos perante a
sociedade. Antes deles, só os grupos da geração de 69 (como o Symarip)
tinham assumido tal postura, mas aqueles eram jamaicanos "aclimatados" à
cultura britânica (o Symarip, por exemplo, era composto por negros), que
executavam reggae e ska, gêneros então adotados pelos skins, e não
corriam risco de serem tachados de racistas ou nazistas, ao passo que os
4-Skins eram brancos e surgiam depois que, na década de 70, o National
Front e facções congêneres já se haviam infiltrado junto à juventude,
sendo portanto mal-vistos pelos desavisados, que os enfiavam no mesmo
saco da Skrewdriver. Em suma, os 4-Skins estavam condenados a coturnar
na corda bamba entre o culto e a culpa.

[5] Embora formados em 1979, os 4-Skins só lançaram seu primeiro álbum
em 1982. Antes disso figuravam apenas em coletâneas, como as da famosa
série de LPs organizados pelo jornalista e crítico Garry Bushell,
padrinho da onda Oi!: no primeiro volume, intitulado OI! THE ALBUM
(1980), a banda participa com as canções "Chaos" e "Wonderful world"; no
segundo, intitulado STRENGTH THRU OI! (1981), entra com as canções
"1984" e "Sorry"; no terceiro, intitulado CARRY ON OI! (1981), com as
canções "Evil" e "Dambusters". Todas essas gravações apresentam o grupo
em sua primeira formação, composta, além de Hoxton Tom McCourt no baixo,
por Gary Hodges no vocal, "Rockabilly" Steve Pear na guitarra e John
Jacobs na bateria. A banda passou por várias formações, que caracterizam
suas três fases distintas, cada uma com um vocalista diferente. A
primeira fase é justamente aquela das faixas avulsas em coletâneas, com
Gary Hodges no vocal. O único single então lançado foi "One law for
them", mas por conta da própria banda. Outras composições daquela fase,
como "Clockwork skinhead" e "A.C.A.B.", chegaram a ser gravadas nas
sessões para escolha das que entrariam no álbum STRENGTH THRU OI!, mas
só foram divulgadas em cassete ou ao vivo até serem incluídas em
antologias "póstumas".

[6] A segunda fase é documentada pelo álbum de estréia (lançado pelo
selo Secret sob o título THE GOOD, THE BAD, AND THE 4-SKINS em junho de
1982) e pelos singles "Yesterday's heroes","Low life" e "Plastic
gangsters".
 

Da esquerda pra direita: 'Yesterdays Heros' e ' Low Life'.

Naquele momento a banda era formada por Tony "Panther"
Cummins no vocal, John Jacobs (que troca a bateria pela guitarra
e pelo piano), Hoxton Tom no baixo e Pete Abbott na bateria.
Nessa dança de cadeiras somente o baixista vai permanecendo,
num raro caso de alta rotatividade que pode ser explicado em
parte pelos incidentes de Southall adiante narrados no parágrafo.

[18]. George Marshall, autor dum
livro intitulado ESPÍRITO DE 69: A BÍBLIA DO SKINHEAD (que traduzi para
o português em edição da Trama Editorial, São Paulo, 1993), comenta as
reformulações da banda nestes termos: "Até os 4-Skins, que chegaram a
crer que nunca mais tocariam ao vivo depois de Southall, voltaram à
estrada antes do fim do ano [1981]. Gary Hodges saíra da banda logo em
seguida à guigue de Mottingham, e antes da guigue que marcaria o retorno
do grupo, no Branningan's, em Leeds, Steve Pear também pediu o boné.
Mesmo desfalcada, a decisão foi manter a carreira e o nome da banda. Um
ex-roadie, Panther Cummins, assumiu os encargos do vocal; John Jacobs
largou a bateria e pegou a guitarra; e um ex-baterista da banda Conflict
chamado Peter Abbott ficou nos tambores."
[7] A terceira fase é documentada pelos LPs A FISTFUL OF 4-SKINS e FROM
CHAOS TO 1984, lançados pelo selo Syndicate respectivamente em outubro
de 1983 e junho de 1984. Àquela altura a banda tinha no vocal Roy (ou
Roi) Pearce (ex-vocalista da Last Resort, extinta em 1982), além de Paul
Swain na guitarra, Hoxton Tom no baixo e Ian Davis (também conhecido
como Ian Bramson) na bateria. Marshall narra a nova reforma com suas
próprias palavras, logo após falar do lançamento de THE GOOD, THE BAD,
AND THE 4-SKINS: "Lá foram os 4-Skins numa turnê para divulgar o novo
disco, tocando junto com a Combat 84. Mas em novembro [1982], duas novas
baixas sobrevieram: Abbott e Jacobs. Para substituí-los, vieram Paul
Swain na guitarra e Ian Davies na bateria, ambos oriundos duma banda Oi!
de Hatfield chamada Criminal Damage. Novos problemas surgiram durante as
guigues, inclusive uma no famoso 100 Club, o que manteria por perto o
fantasma de Southall sempre assombrando. [...] O herói caolho Roi Pearce
foi outro que retornou triunfalmente ao cenário Oi!, cabendo-lhe o
honroso encargo de substituir [1983] Panther como vocalista dos 4-Skins."

Em ordem respectiva: 'Fistful of 4skins' e 'The good, the bad & 4-skins'.

[8] De todas as três fases há registro de apresentações ao vivo: no LP
da série LIVE AND LOUD (Link, 1989) quem canta é Gary Hodges. No lado
dois do álbum THE GOOD, THE BAD, AND THE 4-SKINS, todas as faixas são
cantadas por Panther, que reinterpreta canções da primeira fase, como
"Wonderful world", "Chaos", "Sorry" e "Evil". Quanto ao disco FROM CHAOS
TO 1984, foi produzido especialmente como despedida da banda e gravado
num concerto íntimo, presenciado por uma privilegiada platéia de amigos.
Naquele momento Roy Pearce repassa canções das três fases para registrar
definitivamente o repertório que se imortalizaria.

[9] Em todas as fases, a única figura onipresente e singular, que nas
fotos se distingue das jaquetas de aviador e dos jeans do visual usual,
ao envergar seu impecável terno engravatado no mais puro estilo "mod"
(vestuário também adotado pelos rude boys que, dez anos depois do
Symarip, curtiam o ska das bandas que gravavam pelo selo 2-Tone), era o
baixista Hoxton Tom McCourt, alma e cérebro da banda. Embora as canções
sempre constem como criação coletiva, atribui-se a ele a autoria das
letras. Não por acaso os 4-Skins incluíram no repertório três canções em
ritmo de ska ("Dambusters", "Plastic gangsters" e "Seems to me"): Hoxton
Tom era fã confesso desse gênero. (Segundo George Marshall na BÍBLIA DO
SKINHEAD, "O interesse deles pelo punk começou por causa de sua
admiração pela Sham 69, pelo Menace, pela Skrewdriver e pelos Cockney
Rejects, mas eles também nutriam seu fanatismo pelos favoritos dos mods,
a banda Secret Affair.") Há que ressalvar que, em pleno auge do Oi!,
quando as demais bandas não praticavam o estilo "two tone" dos grupos de
1979 tipo Specials, Madness ou Selecter, os 4-Skins abriam uma
significativa exceção, ainda que, para tanto, tivessem que improvisar:
em "Dambusters" quem canta e toca tudo é John Jacobs; em "Plastic
gangsters" o vocal fica a cargo do próprio empresário da banda, Gary
Hitchcock, espécie de "eminência parda" cujas idéias influíam nas
composições e arranjos; e a faixa "Seems to me", que soa como uma sátira
rítmica do ska, estava prevista para sair num single (com "Norman" no
lado B), mas a Secret não chegou a lançá-lo, talvez para não parecer
insistente num estilo que não era a marca registrada do selo dedicado ao
punk rock.

[10] A canção "Plastic gangsters", ainda que não represente a tônica do
som da banda, revela muito do espírito do grupo. No single, o lado B
traz a mesma faixa tocada de trás para diante, sob o título igualmente
invertido de "Sretsgnag citsalp", mas no álbum THE GOOD, THE BAD, AND
THE 4-SKINS só a gravação normal foi incluída. Guardadas as devidas
proporções, esse "salto experimental", num meio rude e precário como o
punk rock, equivale ao vanguardismo dos Beatles na década de 60, quando
o produtor George Martin utilizou trilhas ao reverso para revolucionar a
estética primária do rock'n'roll. Ao mesmo tempo, tal procedimento
denota as intenções brincalhonas dos 4-Skins, que, fiéis à concepção
mais irreverente da música Oi! (cujo lema era "Having a laugh and having
a say", isto é, tirar um sarro mas ter algo de sério a dizer), não só
criticam o Sistema como satirizam o próprio comportamento dos jovens que
se pretendiam rebeldes mas apenas titubeavam entre os modismos e a
desinformação, tipo "maria-vai-com-as-outras". No caso, a sátira gira em
torno dum "metido a gangster", um "barra-pesada de araque", que pretende
freqüentar os pontos "quentes" da periferia londrina mas acaba "dando
uma de otário" e sempre "levando a pior", como se diria na nossa gíria.
Eis como George Marshall comenta as circunstâncias que envolveram esse
curioso fonograma: "Os 4-Skins lançaram [dezembro/1981] 'Yesterday's
heroes' em compacto, antes de soltar [junho/1982] o LP de estréia, THE
GOOD, THE BAD, AND THE 4-SKINS. Ambos pela Secret, com a qual a banda
tinha assinado. A Secret era uma etiqueta que tinha fama de gastar
dinheiro à toa com produções mal-acabadas que causavam impressão
desfavorável quanto à qualidade do estúdio. Foi por isso que teve gente
surpresa quando a gravadora deu uma no estilo mais quente de Chas and
Dave, mas só por um momento: o da música 'Plastic gangsters' dos
4-Skins, que poderia perfeitamente ter sido gravada pelo Madness."
Confira-se a letra:

I come from south London I think I'm cool
I wear a cheap crombie and that's about all
I go down the pub with all the lads
They're wearing their chains that they got from their dads
But all I got was a rotten cheap chain
My wife's got in debt with the club book again

I'm a plastic gangster
They call me a crown and anchor

I asked one of my mates to get me some books
About the East End their gangs and their crooks
I bought a cheap car from one of the lads
He got it cheap from his car dealing dad
I'm in my new car, I'm driving it home
The next thing I know the engine has blown

I went down the West End, the local was drag
I had to pay a tenner to go with some bag
I took her home to her place I gave her some stick
The next thing I know the old bag was sick

I stay at home on Thursdays, minders on TV
I'm learning Cockney rhyming slang of to a tee
So when I go out on Fridays I know what to say
I wish I was like Arthur and get my own way.

[11] O sarcasmo dos 4-Skins fica ainda mais evidente quando, ao invés do
estereótipo do "gangster suburbano", é o próprio "modelito" do skinhead
o objeto da alfinetada, como na canção "Clockwork skinhead". Também aqui
não se poupa o imitador oportunista que tenta se passar pelo autêntico
skin de raiz proletária: tal como o chamado "punk de butique", em geral
tais skins artificiais são moleques de classe média atraídos pelo
glamuroso visual marginal do skinhead mas alienados do ônus de pertencer
à classe oprimida. Vale lembrar que o termo "clockwork" alude ao filme
LARANJA MECÂNICA de Kubrick, cultuado por punks e skins. A propósito, o
respectivo verbete no ALMANAQUE DO SKINHEAD assinala que os alvos da
sátira são também os "vaquinhas-de-presépio" (garotos ingênuos,
facilmente aliciáveis como massa-de-manobra política, à direita ou à
esquerda). A imagem utilizada é a do personagem Alex em LARANJA
MECÂNICA, que sofre lavagem cerebral e se condiciona conforme o
interesse de quem o manipula. Confira-se a letra traduzida:

Wearing braces, the red, white, and blue
Usando suspensórios nas cores da pátria
Doing what he thinks he ought to do
Fazendo o que acha que é seu dever
Used to be a punk and a mod too
Ele já foi punk e também mod
Or is it just a phase he's going through
Será que agora é outro fogo-de-palha?

He's a Clockwork skinhead, just a clockwork skinhead
  Ele não passa dum skin robotizado
Clockwork skinhead — got no choice
Skin robotizado, sem escolha
He's a Clockwork skinhead, just a clockwork skinhead
   Ele não passa dum skin robotizado
Clockwork skinhead — One of the boys!
Skin robotizado — um entre muitos

Take him to the pub, buy him a beer
Ponha o cara num bar, pague-lhe uma cerveja
Tell him what he wants to hear
Converse com ele sobre o que ele quer ouvir
Wind him up like clockwork toy
Dê-lhe corda como se ele fosse um boneco
Wants to be a man but he's just a boy
Ele quer ser homem mas não passa dum menino

Believes everything the papers say
   Ele acredita em tudo que sai no jornal
What's he gonna be today?
Que será que ele vai virar hoje?
What is it hip to be?
Que é que tá mais na moda ser agora?
Will he be himself or will he copy me?
Será que ele vai ser ele mesmo ou vai me imitar?

[12] No livro A BÍBLIA DO SKINHEAD George Marshall confirma a vocação
lúdica do grupo desde seus primeiros passos, quando ainda nem sonhavam
ser ídolos da cena: "Os 4-Skins eram todos uns grandes sarristas, e,
apesar de terem atuado lindamente abrindo show para o Damned e os
Cockney Rejects na Bridge House (com o próprio Micky Geggus dando sua
mãozinha na batera), eles não levavam a coisa tão a sério, até porque
nem tinham um equipamento minimamente decente." É nesse contexto irônico
e caricatural que deve ser entendida a canção de maior sucesso da banda,
que acabou ganhando importância de hino máximo dos skinheads: "Chaos". A
canção surgiu num momento em que a cultura skin carecia dum rockão que
substituísse os reggaes e skas sessentistas e setentistas, e que tivesse
a mesma agressividade dos clássicos do punk rock. Até então a única
banda skin que não tocava ska nem reggae era a Skrewdriver, mas Ian
Stuart ainda hesitava entre uma lírica genericamente punk e uma
tendência ultradireitista que só se afirmaria explicitamente em 1982 na
canção "White Power"; naquele momento (1980) de inauguração do movimento
Oi! quem realmente introduziu o discurso skin no ritmo punk foram os
4-Skins, tanto que só em 1982 a Skrewdriver os imitaria com a clássica
"Back with a bang". A mística de "Chaos" foi tão marcante que até hoje a
canção é apontada em todas as enquetes como a mais popular e regravada
na cena skin, seja entre bandas antinazistas como a Oppressed, seja
entre as do RAC como a Skullhead. De fundamental fica patente que a
mensagem anárquica dos 4-Skins não se encaixava nem à esquerda nem à
direita. Ainda de acordo com Marshall, era comum entre as bandas Oi!
ridicularizar os extremismos políticos: "Qualquer manifestação nazista
vinda de algum setor do público era logo respondida na base da gozação
de cima do palco. Se uma ala começava a gritar 'Sieg Heil!', Max Splodge
(líder do grupo Splodgenessabounds) costumava retrucar: 'Não tô vendo
nenhuma gaivota.' [Em inglês, a pronúncia de 'Sieg Heil!' ('sigal') é
igual à de 'seagull' (gaivota), e o sarrista Splodge não ia perder o
trocadilho.] E quando Tony 'Panther' Cummins assumiu [1981] o posto de
vocalista dos 4-Skins no lugar de Gary Hodges, sua resposta aos nazis
era 'Não precisa levantar a mão, que eu não vou fazer chamada'."Confira-se
a letra traduzida de "Chaos":

Do you remember the days in 69?
Você se lembra dos tempos de 69?
Seeing all the skinheads standing in a line
   Vendo a carecada toda perfilada
Foaming at the mouth, waiting for a fight
Espumando pela boca, esperando pela briga
High boots, cropped hair, what a fucking sight!
Bota de cano alto, cabelo raspado, que cena do caralho!

Come back of the skinhead, come back of the boot!
   Que venha de volta o skin, que venha de volta a bota!
People that we don't beat up we're gonna fucking shoot!
Quem a gente não pegar de pau, a gente fode à bala!
We are the new breed, [and] we will have our say!
  Somos a nova estirpe e vamos ter nossa voz!
We are the new breed, we ain't gonna die!
Somos a nova estirpe e não vamos morrer!

Down in East London, trouble on the streets
   Pela Zona Leste, encrenca nas ruas
On the street corners where the gang still meets
Nas esquinas onde a gangue ainda faz ponto
Talking about the weekend: What they're gonna do?
Falando do fim-de-semana e do que vão aprontar
If you ain't careful they're gonna do you!
Se não tomar cuidado, eles aprontam com você!

Chaos in the city! Civil war now!
Caos na cidade! Guerra civil já!
Skinheads now wanna do it, skinheads know how!
Os skins já querem aprontar, e sabem como!
Skinhead with his boots on, nobody's fool
O skin calça bota, que ninguém é bobo
Skinheads taking over, chaos is the rule!
Skins tomando conta, é a lei do caos!

Chaos! Chaos! Chaos! Don't give a toss!
Caos! Caos! Caos! Ninguém tá nem aí!

[13] Sempre se pode alegar, para relativizar o pioneirismo dos 4-Skins
com "Chaos", que em 1980 não era só a Skrewdriver que já praticava um
rock de skinheads: também a Sham 69 e suas discípulas Angelic Upstarts e
Cockney Rejects, embora rotuladas de bandas punks, tinham seu público
skin. Mas é preciso assinalar, ainda em defesa do quarteto de Tom, que
nenhuma canção dessas bandas sequer mencionava a palavra "skinhead" na
letra, nem falava de traços típicos e exclusivos da cultura skin. A
única exceção foi a canção "Oi! Oi! Oi!" dos Cockney Rejects (que alude
a botas Doc Marten e jaquetas Harrington mas não usa o termo
"skinhead"), mas esta faixa saiu justamente no mesmo disco (a coletânea
OI! THE ALBUM) em que "Chaos" foi incluída. Portanto, nada que restrinja
o alcance da obra. Contudo, "Chaos" não aparece apenas naquele álbum: só
pelos 4-Skins teve no mínimo quatro gravações, cada uma com vocal
diferente. Uma seria a "oficial" de estúdio na voz de Gary Hodges (da
primeira formação). Outra seria a versão "Herbert" [termo usado para
rotular os apreciadores de música skin que não se consideram skins], que
era para ser creditada a Harry & The Herberts na coletânea SON OF OI!
mas não chegou a entrar no disco; esta era interpretada pelo líder
Hoxton Tom, que abria uma exceção e fazia o vocal, por sinal péssimo.
Outras duas são registros ao vivo, um de Panther (da segunda formação)
no álbum THE GOOD, THE BAD, AND THE 4-SKINS, e um de Roy Pearce (da
terceira formação) no álbum FROM CHAOS TO 1984. Isso sem contar as
covers de outras bandas, até antagônicas, como a Oppressed (no álbum OI!
OI! MUSIC) e a Skullhead (no álbum ODIN'S LAW), além de regravações e
versões pelas bandas Pressure 28, Decibelios (espanhola), Comando
Suicida (argentina), etc. É decididamente o maior hino skin de todos os
tempos.

         The last line-up os 4-skins 1983: Roi, Paul,
Tom and Iam
The Bricklayer Arms
Hoxton


[14] A fama de violento e vândalo que acompanha a imagem do skinhead foi
assumida pelos 4-Skins com o maior cinismo. Propositalmente irracional e
inconseqüente, a canção "Evil" exagera ao máximo a suposta crueldade tão
apreciada pelos skins como expressão da chamada "ultraviolência" (para
usar outro termo do filme LARANJA MECÂNICA e do livro de Burgess em que
Kubrick se baseou), ao mesmo tempo em que a banda escolhe o ritmo mais
acelerado dentro do estilo punk a fim de acentuar o clima grotesco de
tanta brutalidade aparentemente gratuita. Confira-se a letra traduzida:

I like breaking arms and legs
Adoro quebrar braços e pernas
Snapping spines and wringing necks
Estalar espinhas e torcer pescoços
Now I'll knife you in the back
   Agora vou esfaquear você pelas costas
Kick your bones until they crack
Vou chutar seus ossos até que se partam

I'm Evil, evil, evil, evil
Sou mau, mau, mau, mau
Evil, evil, evil, evil
Mau, mau, mau, mau

Jump up and down upon your head
Vou ficar pulando em cima da sua cabeça
Kick you around 'til you're dead
Vou cobrir você de pontapé até que morra
Fill your body full of lead
Vou encher seu corpo de chumbo
See the roads turn to red
Quero ver as ruas vermelhas de sangue

I don't like trendy cunts who pose
Não topo essa porra de gente da moda que fica posando
Gonna punch you in the Nose
   Vou esmurrar seu nariz
Stick my Marten in your crotch
Vou meter a bota no seu saco
Don't like you, you're too much
Não topo você, você já tá demais pro meu gosto

[15] Outra irônica alusão da banda é à canção "Wonderful world,
beautiful people", um clássico do reggae em que Jimmy Cliff conclama
todos ao pacifismo e à solidariedade entre povos, raças e classes.
Diante da crua realidade do desemprego e da violência "tribal" na era
Thatcher, os 4-Skins não podiam deixar passar o tema sem pisar no calo
com a canção "Wonderful world". Confira-se a letra traduzida:

Just left school (you) can't find no work
Mal sai da escola e você não acha trabalho
Be a building labourer or an office clerk
Como operário da construção ou funcionário de escritório
Can't believe anything you see
Não consegue acreditar no que vê
Thrown on the scrapheap, only seventeen
Jogado para as traças logo aos dezessete

What a wonderful world!
Que mundo maravilhoso!
What a wonderful world this is!
Que mundo maravilhoso é este!

Now you're on the street waiting for a bus
   Agora você espera o ônibus na rua
Old Bill come and try to nick you for suss
O tira chega e leva você como suspeito
You can tell them your doing nothing wrong
Pode explicar que não fez nada de errado
They tell you not to sing the same song
Mas eles não aceitam a mesma desculpa

Going down the pub you're on your own for the night
De noite no bar você vai descontrair
Bootboy nutters try and pick a fight
Os broncos botinudos puxam briga com você
You can try and plead for your life
Você faz o que pode para salvar a pele
They'll still cut you with a fucking great knife
Mas eles vão lhe enfiar uma puta faca

[16] As referências literárias não param em Anthony Burgess: outros
visionários autores são lembrados, como o Aldous Huxley de ADMIRÁVEL
MUNDO NOVO e, sobretudo, o George Orwell de 1984, explicitamente glosado
na canção "1984", composta três anos antes da emblemática data em que,
além da profética carga maldita, os próprios 4-Skins se dissolveriam.
Confira-se a letra traduzida:

Britain's in trouble, country's bled dry
O país vive um drama, a nação foi sangrada
Handicapped and elderly have all gotta die
   Deficientes e velhos estão condenados à morte
No one fights the system, fight with each other
Ninguém combate o Sistema, combatem-se uns aos outros
The combine is laughing, scared of Big Brother
   Os conspiradores dão risada e todos temem o Grande Irmão

What are we gonna get in 1984?
Que é que vamos ganhar em 1984?

Rats leave the sinking ship, they've got their money made
Os ratos abandonam o navio, já lucraram o que podiam
Third world countries, sending us aid
Até o Terceiro Mundo já nos manda ajuda
People queue up just to get their ration
   Tem gente fazendo fila pra comida racionada
Not the birth, but the death of a nation
Não é nascimento, é morte duma nação

Will there be some heroes,into 85
Será que haverá heróis em 85
When the bomb is dropped, and how do you stay alive?
Quando a bomba for jogada, como você vai sobreviver?
Orwell said it all, he looked the future in the face
Orwell disse tudo, ele viu a cara do futuro
Giant test tube babies, build a brand new race
   Bebês gigantes de proveta são cria duma nova raça

[17] Não só ao futuro imediato se reportam os 4-Skins, mas também ao
passado, quando glórias e valores são questionados no momento de avaliar
a herança comportamental das novas gerações. Bem ao estilo mordaz da
melhor estirpe pensadora dos compositores mais conscientes da história
do rock (como Lennon e Townshend), os 4-Skins não perdem a deixa para
gozar da própria cara e desmistificar a carreira artística dos supostos
astros do pop: a canção é "Yesterday's heroes". Confira-se a letra:

From the cradle to the grave
The Oi Boy trying to be brave
Show he's going to everyone
From his birth to his death
Got to prove that he's the best
Don't even mean it's got to me done

But he's yesterday's hero
Yesterday's hero in every way
Yesterday's hero
Yesterday's hero is forgotten today

Wants to try his hand at pop
Have a record at the top
All these records are lots of fun
Concerts city style
They all make you smile
Ain't it all a load of fun?

On telly every day
Copied in every way
Fans ask for an autograph
Some kind of superman
Photographs for a fan
Don't it all make yer laugh?

[18] Mas nem sempre este último verso predomina na lírica da banda, e há
momentos em que a vontade de rir cede lugar à pura e crua indignação. É
o caso do episódio que ficou conhecido como o caso Southall, nome do
subúrbio londrino onde um concerto de bandas Oi! se transformou num
conflito entre skinheads e imigrantes asiáticos (hindus, paquistaneses,
etc.), com imensa repercussão negativa na mídia. Em julho de 1981, o
confronto dos skins com a população local ecoou nacional e
internacionalmente, passando para a história como fato simbólico da
violência racial. Dois anos antes, em abril de 1979, morrera naquele
bairro um militante antinazista num confronto entre o National Front e a
Anti-Nazi League. Já em 1981, auge do movimento Oi!, três bandas (Last
Resort, Business e os próprios 4-Skins) que se apresentavam num pub
chamado Hambrough Tavern despertaram reação da comunidade, contra a
ameaça xenófoba e racista representada pelos skins e contra a
"provocação" de terem tocado no gueto asiático. O povo sitiou e
incendiou o bar, e as bandas (com seu público skin) só escaparam do
linchamento pela intervenção da polícia. A imprensa registrou o episódio
invertendo as circunstâncias da agressão, responsabilizando o movimento
Oi! pela incitação à intolerância em vez de constatar que os skins se
encontravam na situação de vítimas. Seguiu-se um forte boicote contra o
mercado fonográfico das bandas Oi! e o movimento esteve a pique de
ceder, mas embora algumas bandas (como a Last Resort e a Combat 84)
encerrassem carreira poucos meses depois, bastaram alguns anos para que
a cultura skin ressurgisse com maior fôlego, desta vez dividida entre os
que assumiam a xenofobia e o racismo (através da Skrewdriver e do RAC) e
aqueles que repudiavam a discriminação (através da Oppressed e do
SHARP). Southall tem seu significado, portanto, como estopim detonador
dum racha que já estava latente, entre nazistas e antinazistas, ou entre
fanáticos e apolíticos, como querem outros. A reação dos 4-Skins contra
a campanha de difamação do skinhead veio na canção "One law for them",
que denuncia a parcialidade com que a mídia tratou ambos os lados do
conflito. Segundo George Marshall na BÍBLIA DO SKINHEAD, "Sem chance de
novos acordos com gravadora, os 4-Skins resolveram lançar um single por
sua própria conta, sob a etiqueta-fantasma Clockwork Fun. A música era
'One law for them' [julho/1981], e a letra era um desabafo contra os
dois pesos e duas medidas ('one law for them and another law for us')
que vigoravam no elitista sistema jurídico britânico. Uma forma de
responder à hipocrisia e parcialidade quanto a Southall. Se a justiça
britânica é a melhor do mundo, então que Deus proteja os pobres coitados
dos países estrangeiros! A despeito dos problemas com distribuição
(algumas lojas simplesmente recusavam o compacto), o disquinho foi um
dos lançamentos punks mais vendidos do ano, só pra chatear os críticos."
Seguem-se estas palavras de Hoxton Tom: "Veja como são as coisas. Num
debate punk você vê todos aqueles notórios esquerdistas metendo o pau na
mídia, mas eles preferiram acreditar no que a mídia disse sobre nós e
Southall, porque isso ficava bem para eles, era coerente com suas idéias
estereotipadas." Confira-se a letra traduzida de "One law for them":

Go to football, throw a brick,
Vá pro estádio, atire tijolo,
Get no mercy, months in nick
Não tenha dó, (mesmo podendo ficar) meses em cana
Riot in the ghetto, red alert,
Tumulto no gueto, alerta vermelho
Guilty free, innocent hurt
Impunidade e ferimentos "sem querer"

We've been warned of rivers of blood
Estamos prevenidos sobre os "rios de sangue"
See the trickle before the flood
Dá pra ver o fio d'água antes da enxurrada
Pretend nothing happened, make no fuss
Fingimos que nada aconteceu, nem nos abalamos
One law for them, One for us
Uma lei pra eles e outra pra nós

One law for them, One law for them,
Uma lei pra eles
One law for them, and another law for us
Uma lei pra eles e outra pra nós

No fun, no homes, no job, no use
Sem diversão, sem casa, sem trabalho, sem utilidade,
What else is used as an excuse
Que mais vão alegar?
Families fighting, families looting
Famílias brigando, famílias saqueando
Next there's death, then there's shooting
Depois pinta morte, pinta tiro

Riots in London, blame Old Bill
Tumulto em Londres, a culpa é do veterano de guerra
We've been lucky no one's killed
   Temos sorte se ninguém for morto
Violence on the streets, more to follow
Violência nas ruas, e mais ainda está pra rolar
Freedom for those freedom fighters
Liberdade pra quem luta pela liberdade

[19] Mesmo num incidente tão trágico e traumático sobra espaço para o
lado folclórico da lenda, ou seja, o anedotário que circula
paralelamente ao noticiário sensacionalista. George Marshall registra,
em certas passagens da BÍBLIA DO SKINHEAD, os rescaldos mais pitorescos
do incêndio na casa noturna, como o caso do "membro dos 4-Skins (cujo
nome permanece em sigilo) que, mesmo com o prédio reduzido a cinzas,
insistia em cobrar da gerência da casa seu cachê pela guigue! Caso mais
emocionante foi o de 'Rockabilly' Steve, o guitarrista da banda, que
pulou a janela para escapar das chamas e foi caçado rua afora por uma
gangue de asiáticos. Na fuga, Steve quis atravessar o jardim duma casa e
levou com uma frigideira na cabeça, empunhada pelo proprietário que saiu
para ver que raio de algazarra era aquela. O rockeiro acabou sendo
levado por uma viatura policial e 'despejado' na periferia da cidade!
Desgraça pouca é bobagem."

[20] Se no caso Southall a polícia até salvou os skinheads dum
verdadeiro massacre, não é de benfeitora o papel que rotineiramente
desempenha perante punks e skins, os quais se ressentem da repressão e
atacam os policiais, se não fisicamente, ao menos na letra das canções.
E nem por deverem a vida à intervenção dos tiras é que os 4-Skins
perderiam a chance de manifestar a revolta contra tantas outras ocasiões
em que a polícia foi arbitrária e truculenta. Eis como, na canção
"A.C.A.B.", todos os tiras são xingados do mesmo nome: segundo o verbete
respectivo no ALMANAQUE DO SKINHEAD, a canção é alusiva a uma marca que
alguns skins levam nas costas da mão (no ponto em que o polegar se
encontra com o pulso) — quatro pintas ou sinais gravados com faca (ou
tatuados), cujo significado é um xingamento aos policiais, através das
iniciais da frase "All Coppers Are Bastards" (todos os tiras são filhos
da puta). Confira-se a letra:

Hangin' around with my mates one night
Saindo com a turma certa noite
We got in a little fight
Nos envolvemos numa briguinha
Geezer come with a knife in his fist
O cara trazia uma faca na manga
I got cut along with the wrist said
Saí com o pulso cortado e as marcas diziam:

ACAB ACAB ACAB
All cops are bastards
Todos os tiras são filhas-da-puta!

Coppers come up & say what's the matter with you?
   Vieram os homens e perguntaram o que houve
Now they see what we can do
Agora percebem o que a gente é capaz de fazer
Next thing I knew I was in a cell
Só sei que depois disso eu tava em cana
All my mates are in there as well
   Meus camaradas também foram parar lá

I had a court date to plead my case
Tenho julgamento marcado pro meu caso
They had delight at the look in my face
Eles se deliciam me vendo preso
They said we're gonna put you away
Dizem que eu vou ficar internado
I said all I had to say
Eu só disse o que tenho a dizer: ACAB...

[21] Marshall registra alguns interessantes lances que evidenciam quanta
pressão, em meio a boicotes e sabotagens, sofreram os 4-Skins em
conseqüência do "filme queimado" das bandas Oi! em Southall: "Como
estavam na linha de frente do movimento Oi!, os 4-Skins foram os que
mais levaram pau. Em março [1981] eles já tinham sido destaque junto com
a Infa-Riot numa matéria sobre fascismo do SUNDAY TIMES. Embora o artigo
não afirmasse taxativamente que esta ou aquela banda fosse racista, isso
ficava subentendido, o que custou várias guigues a menos para ambas.
Outro tipo de notícia que volta e meia pegava no pé dos 4-Skins era uma
que saiu no SOUNDS sobre skinheads, na qual o empresário da banda, Gary
Hitchcock, teria dito que já pertencera ao British Movement [uma facção
nazista ligada à Skrewdriver]. Mas o que não era mencionado é que ele
também dissera que os skins que se envolviam em política não passavam de
otários, ou que a banda não era tão antiga quanto a data de formação ali
citada. [...] A maior parte da merda do ventilador tinha caído na cabeça
dos 4-Skins, que tiveram mais trabalho para se limpar. Eles se
ofereceram para organizar uma guigue beneficente em prol dos policiais
feridos, juntamente com a colônia asiática de Southall, e ainda se
propuseram a tocar numa guigue independente anti-racista a fim de provar
que não nutriam 'más intenções'. Com uma canção como 'A.C.A.B.' no
repertório, muita gente achava que a banda era contra a polícia, e agora
era o caso de desfazer essa impressão. Praticamente todo mundo sabe que
a sociedade tem que ter algum tipo de força policial se quiser
sobreviver. O que os 4-Skins e outras bandas (como os Angelic Upstarts)
condenavam era o mau policiamento, voltado contra o cidadão menos
favorecido. Em Southall, os tiras tinham sido literalmente o cego no
meio do tiroteio, e acabaram levando a maior sobra de cacete. Uma guigue
beneficente era a forma de reatar relações tanto com a comunidade local
quanto com as autoridades. Mas a bandeira branca da banda foi repelida
tanto pela polícia como pela organização da guigue anti-racista. Bem,
pelo menos eles tentaram. [...] Uma guigue secreta foi preparada [1981]
no pub Prince of Wales de Mottingham (no sul de Londres), e a equipe do
'Nationwide' da BBC foi contatada a fim de verificar in loco que o Oi!
não era sinônimo de encrenca. Os 4-Skins entravam no programa
disfarçados como um conjunto de música country chamado The Skans, e a
banda encarregada de abrir o show era uma tal de The Bollyguns, que não
era outra senão a Business em nome fantasia. A noite transcorreu sem
problema, mas prejudicada porque o som era cortado toda hora durante a
apresentação dos 4-Skins. A coisa redundou num certo fiasco, já que
metade do público subiu no palco para compensar a falta de volume dos
amplificadores. [...] A administração municipal os proibiu [1982] de
tocar na Keighley Funhouse, na peça de Trevor Griffith intitulada 'Oi!
for England'. A peça, que poderia ter levado os 4-Skins ao conhecimento
do público dos camarotes, era obviamente um espetáculo anti-racista, mas
são essas as vicissitudes da nossa democracia. Acusa-se um conjunto de
racista e não se permite que ele toque num palco anti-racista para poder
provar o contrário. Um grêmio estudantil tentou intervir na montagem da
peça, mas os 4-Skins acabaram recusados por causa da fama de fascistas
entre os próprios estudantes. E depois tem gente que ainda estranha que
os skinheads odeiem universitários..."

                4-skins 1980 The Bridge House Cannig House Town  


[22] Se em relação à polícia a atitude é de franca hostilidade, não
menos rancorosa é a posição dos skinheads em relação à sociedade como um
todo. Considerando-se bodes expiatórios numa perseguição descabida e
sistemática, os skins encontram em sua banda mais típica a resposta
adequada a qualquer cobrança ou acusação: nada de pedir desculpas. Essa
é a postura defendida na canção "Sorry", outra em que o senso de humor
desaparece para dar lugar à raiva. Confira-se a letra traduzida:

I won't say sorry for what I've done
Não vou pedir desculpa pelo que fiz
I won't say sorry for having fun
Não vou pedir desculpa por me divertir
I won't take the blame
Não vou levar a culpa
No I ain't gonna be ashamed
Não, eu não vou me envergonhar
Won't say sorry for what I've done
Não vou pedir desculpa pelo que fiz
I don't say sorry to anyone
Não vou pedir desculpa pra ninguém

Shout it out, shout it out
Grite bem alto:
I don't give a damn cos I'm proud of what I am
Não tô nem aí porque me orgulho do que sou

I won't say sorry to you
Não vou pedir desculpa pra você
If you think I will you know what you can do
Se pensa que vou, você já sabe o que pode fazer (com sua pretensão)
I won't apologise
Não vou me desculpar
And I won't put up with any of your lies
E não vou engolir suas mentiras
I won't say sorry to you
Não vou pedir desculpa pra você
You can stuff that up your asshole too
Pode enfiar sua pretensão no cu

I won't say sorry for what I act
Não peço desculpa pelo meu modo de agir
I won't say sorry for the manners I lack
Não peço desculpa pela minha falta de modos
I won't say sorry at all
Não peço desculpa de jeito nenhum
I won't say sorry 'cos it makes me feel small
Não peço desculpa porque isso me diminui
I won't say sorry for the way I act
Não peço desculpa pelo meu modo de agir
I won't say sorry and that's a fact
Não peço desculpa e ponto final

[23] Alguém poderá observar que esse tipo de orgulho em ser "do contra"
não é postura exclusiva do skinhead, mas caracteriza qualquer faceta do
comportamento juvenil, cuja rebeldia se manifesta através de várias
gerações e gêneros do rock. Eu diria que há, de fato, um denominador
comum entre punks e skins no que tange a repudiar o Sistema. Em certos
momentos, as canções das duas tribos coincidem a tal ponto que os
desavisados jurariam nem existirem tantas divergências entre o
anarquismo daqueles e o patriotismo destes, entre o desleixo daqueles e
o rigor destes, entre os vícios daqueles e os fanatismos destes. Mas
para exemplificar um caso em que o discurso duns e doutros converge,
confira-se a letra da canção "I don't wanna die":

I don't wanna die in world war 3.
I don't wanna take one for the team.
I don't wanna hear that 4 minute warning.
I just wanna have brekky when I get up in the morning.

I I I don't wanna die!

You can ask the reason why.
And I won't tell a lie.
I I I don't wanna die!

I don't wanna die in a front line army.
I think the generals are all barmy.
I'd rather go and live in a cave.
I ain't gonna fight cause I ain't brave.

I don't wanna die in a nuclear war.
I'd rather stay home and wipe the floor.
I don't wanna get blown to bits.
I like my life and the way it is.

[24] Sim, além do som, também as letras dos 4-Skins são perfeitamente
punks, como o próprio Oi! sempre foi a reafirmação do movimento punk em
seu perfil mais genuinamente rueiro e suburbano. Mas ao mesmo tempo os
4-Skins tiveram tamanha personalidade que deixaram bem claro o como e o
por quê não é preciso engajar-se no nazismo ou na cultura jamaicana para
provar que o skinhead constitui uma cena à parte, com seus valores,
símbolos e troféus. Personalíssimos e carismáticos como eles, talvez não
surja banda alguma nessa área. A Skrewdriver também deixou sua marca
inigualável, mas seu som perdeu a pureza e a crueza do Oi! para
confundir-se com um heavy metal diluído ou com um folk acústico,
enquanto suas letras viraram repetitivos discursos hitleristas; a
Condemned 84, única com carreira e discografia suficientes para uma
comparação justa, também não resiste aos quesitos originalidade e
pioneirismo, já que começou exatamente no ponto em que os 4-Skins
pararam, sendo portanto não mais que digna continuadora. Resta a Last
Resort como possível parâmetro em termos de lenda, mas se verificarmos
com atenção veremos que sua importância não chega à altura dos 4-Skins.
Primeiro, porque começou depois e terminou antes do quarteto de Tom;
segundo, porque seu repertório é menos consistente. Examinemos a ficha
desse outro típico grupo skin, cujo nome (um trocadilho entre "última
instância" e "última estância", já que era oriundo da balneária Herne
Bay) está relacionado à frase "No mess, no fuss, just pure impact: the
last resort" (Sem rolo nem choro, só puro impacto: o último recurso).
Empresariada por Micky French, dono da loja e do selo homônimos, a banda
era formada por Roy (ou Roi) Pearce no vocal (em algumas faixas quem
canta é Graham Saxby, o anterior vocalista, que saiu em 1981), Charlie
Duggan na guitarra, Arthur "Bilko" Kitchener no baixo e Andy Benfield na
bateria. Apesar da carreira curtíssima, participou das principais
coletâneas organizadas por Garry Bushell e deixou um álbum (A WAY OF
LIFE) que, embora mal-gravado, contém alguns dos mais célebres hinos do
movimento, como "Violence in our minds", "Skinheads in stapress",
"Rebels with a cause" e "Resort bootboys". Outros clássicos são "Working
class kids" e "Johnny Barden" (incluídos na coletânea STRENGTH THRU
OI!), "King of the jungle" (incluído na coletânea CARRY ON OI!),
"Horrorshow" (incluído na coletânea OI! OI! THAT'S YER LOT), além de
"Soul boys" e "Held hostage", estes na voz de Saxby.

[25] No meu livro SKINHEAD LETRA POR LETRA (São Paulo, Rotten Books,
1995) o grupo estava fichado nos seguintes termos: "Esta banda inglesa
só não virou símbolo do movimento skin porque foi ofuscada pelo mérito
maior dos 4-Skins. Formada em 1980, seu baixista Arthur 'Bilko'
Kitchener tinha sido líder dos Arthur Kay & The Originals (famosa banda
de ska), e o vocalista Roi (ou Roy) Pearce acabou indo para os 4-Skins
após a dissolução da Last Resort, em 1982. O nome da banda, por sua vez,
vinha duma badalada loja de artigos para skinheads, cujo dono Micky
French empresariou o grupo e lançou por sua própria indie o antológico
álbum A WAY OF LIFE: SKINHEAD ANTHEMS."

[26] Na BÍBLIA DO SKINHEAD, George Marshall faz as devidas restrições à
importância da banda: "A única banda que não deu tudo que tinha foi a
Last Resort. O grupo era pra ter explodido e mostrado muito mais, se
Southall não pintasse no meio para atrapalhar. É só perguntar a quem viu
a banda de perto. Só que, em vez de percorrer o país tocando e fazendo
seu nome, eles ficaram naquela de não sair do pedaço, no meio daquele
mesmo publicozinho de bebuns do sul de Londres. Resultado: no começo de
82 eles decidiram desfazer a banda. [...] Um álbum intitulado A WAY OF
LIFE: SKINHEAD ANTHEMS chegou a ser gravado e lançado meio às pressas em
abril pela própria etiqueta da Last Resort, que era dirigida pelo dono
da loja, Micky French. O disco foi ostensivamente dirigido ao mercado
skin, visando rápido retorno financeiro, em vez de ser trabalhado para
mostrar ao resto do mundo o que todos estavam perdendo. Daí o apelativo
título do álbum, a baixa qualidade da gravação, e a inclusão de 'Red
White and Blue' (cores da bandeira inglesa) e 'Last Resort Bootboys' em
detrimento de 'Soul Boys' e 'Johnny Barden'."

[27] Opiniões e preferências à parte, o fato mais cabal para provar a
superioridade dos 4-Skins é justamente a entrada de Roy Pearce no grupo,
em substituição a Panther. Alguns observadores mais críticos fazem
restrições à participação de Pearce nessa terceira fase da banda,
alegando que o dedinho dele nas letras e seu estilo vocal tiraram algo
da originalidade dos 4-Skins, que teriam virado uns 4-Resort ou uns Last
Skins, mas há exagero nesse veneno. Roy deu sua contribuição e valorizou
ainda mais a bagagem da banda. Além disso, foi com ele que os 4-Skins
gravaram seu único LP inteiramente inédito e produzido em estúdio (A
FISTFUL OF...), ainda que as canções fossem mais arrastadas e só se
destacasse um ou outro clássico tipo "City boy" ou "Betrayed", já sem
aquele senso de humor dos primeiros tempos. Seja como for, a lenda só
teve a ganhar e a aumentar com a vinda do zarolho vocalista da Last
Resort, que trouxe consigo o carisma da banda co-irmã.

[28] Nas palavras de Marshall, a dissolução dos 4-Skins teve um registro
fonográfico à altura de sua mística: "O herói caolho Roi Pearce foi
outro que retornou triunfalmente ao cenário Oi!, cabendo-lhe o honroso
encargo de substituir [1983] Panther como vocalista dos 4-Skins. A Last
Resort tinha dado um jeito de incluir [1982] a faixa 'Horrorshow' na
coletânea OI! OI! THAT'S YER LOT sob o nome de The Warriors, mas agora o
foderoso homem do microfone estava comprometido com Hoxton Tom e seus
rapazes até que a morte dos 4-Skins os separasse em 1984. [...] Mas o
grupo andava meio puto por não conseguir guigar tanto quanto pretendia,
e no meio das discussões Paul Swain e Ian Davies acabaram pulando fora
[1983], ou, segundo outra versão, sendo expulsos por 'mau comportamento'
ou 'malcriação'. [Em nota acrescentei que "Paul Swain, ou Swainy pros
íntimos, foi parar na Skrewdriver e aparece na formação que gravou o
álbum BLOOD & HONOUR em 1985. Consta que teria participado também da
gravação do álbum HAIL THE NEW DAWN, ainda em 84, mas seu nome não
figura nos créditos do disco."] [...] A banda diria adeus com um álbum
[junho/1984] gravado ao vivo pela Syndicate que levou o título de FROM
CHAOS TO 1984. O disco tinha todos os clássicos, menos 'Sorry', e foi um
tributo à altura da banda número um do Oi!."

[29] Para uma reflexão honesta sobre os 4-Skins e seu papel na história
do rock, é forçoso reconhecer que, ao contrário de tantas bandas
centradas no culto da personalidade do líder e/ou do compositor, eles
levaram sua atitude anticonvencional ao ponto de negligenciar a própria
biografia grupal, omitindo as letras nos encartes de vinis e CDs,
deixando de indicar a autoria das canções e evitando, sobretudo, a
recorrente tentação que assola várias bandas extintas (como a Business,
a Last Resort ou os Cockney Rejects) com aquela coceirinha de querer
ressuscitar e retornar à velha estrada. Estejam onde estiverem, todos os
integrantes que passaram pelas fichas técnicas daquele mágico logotipo
alfanumérico certamente terão consciência de que, assim como os Beatles,
e embora num universo infinitamente mais restrito como a cena skinhead,
foram eles os deflagradores da mais fanática das devoções, bem como
autores do mais fundamental e rico dos repertórios dentro do cancioneiro
dessa controvertida e fascinante subcultura da contracultura: a saga do
skinhead, esse eterno incompreendido.

[dezembro/2004]